quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Decisão

O silêncio conta a sua história.
Jorge acordara calado e disposto a não mover um milímetro da sua decisão, uma palha sequer. Mas isso ninguém esperava, queriam mesmo é que ele cedesse à chantagem.
Segundo a mãe, aquele seria o dia em que tudo iria mudar definitivamente na vida dele; fosse em nome da família ou da moral , da religião ou sei lá o quê.
Pastores evangélicos não estavam incluídos na lista apesar de tudo estar acontecendo, no fundo, em nome de Jesus. Convicção forte nunca muda e eles eram católicos fervorosos. Grande merda.
- Tens que trocar de roupa, já está na hora de ir, disse a mãe.
- Não imaginas o ódio que estou passando, pensou ele.
- Tudo bem, já estou quase pronto.
E como ela era difícil, pensou Jorge. A decisão final sempre tinha que passar por ela, que decidia pelo bem de todos, o que cada um sentia não importava na verdade, tudo era visto como um conjunto, sempre foi assim.
Jorge tinha um desvio de caráter gravíssimo e deveria ser curado a qualquer custo; isso era um pesadelo prestes a começar naquele exato momento.
Enfim saíram, o ônibus partiria dentro de 15 minutos e eles estavam ainda em casa.
Jorge vestiu sua melhor roupa, como se estivesse prestes a conhecer alguém novo, alguém a quem ele que deveria a qualquer custo impressionar.
Quem dera fosse um novo amor, ou a reconquista de um antigo. Mas ele estava sozinho. Completamente sozinho.
O grande amor que haveria de conquistar seria a sua psiquiatra. Ninguém haveria de simpatizar com ela, isso ele já imaginava.
O destino custava a chegar, a estrada era longa, e Jorge já sabia que seu destino estava traçado. Decidiu então tentar se distrair um pouco.
Exatamente o que iria enfrentar a partir dessa viagem, não tinha coragem de imaginar... muitas coisas das quais não sentia a real dimensão. Na verdade não se sentia pronto pra tanto, nunca esteve.
Tentando fazer o que tinha se proposto começou a olhar os passageiros ao seu redor e imaginar, o que moveria aquelas vidas? Ele nunca saberia.
O que move a minha vida? Tudo é horror, é incompreensão, é ignorância. Sentiu-se por um breve momento infeliz.
De repente a mulher ao seu lado, sorridente, disse:
- Tens a fisionomia de uma pessoa triste.
- É mesmo, certos tipos de coisas são tão visíveis que não se pode enganar ninguém, nem ao menos quem não se conhece, pensou.
Ficou sem reação, e naquele instante, não sabia que estava ali a frase que iria marcar pra sempre a sua vida.
Levava consigo dentro da bagagem de mão um canivete para emergências, usado sempre que necessário. Decidiu cortar os pulsos no banheiro e acabar logo com aquilo mas voltou atrás, resolveu antes dormir um pouco.




..f..a..l..l..i..n..g......b..o..y..

Um comentário:

  1. Pobre Jovem Jorge.

    Triste ao ver mais uma aventura se descortinando diante de seus olhos, mal sabe ele que rumos tomarão os caminhos de Mather Jorge (Jorges's mom) e sua prole.

    Soube de um caso que acabou em teatro. Melhor dizendo, começa agora o segundo ato!

    (adorei o texto!!!)

    Saudações

    Odmieniec William Goroncy

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